Com o aumento das cervejarias artesanais, cresce oferta de cursos na área

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Alunos aprendem todos os caminhos para produzir uma bebida de qualidade

A princípio, cerveja e escola podem parecer uma combinação não muito apropriada. A realidade, entretanto, tem mostrado o contrário. O crescimento vertiginoso das cervejarias artesanais em Minas impulsiona a qualificação profissional do setor e leva à abertura de uma série de cursos focados no líquido à base de malte de cevada e lúpulo. As ofertas vão desde cursos de livres e de extensão à pós-graduação. Voltada tanto para apreciadores quanto para quem enxerga na bebida um mercado em expansão, a formação pode ser encontrada em instituições de ensino tradicionais, como a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e o Centro Universitário de Belo Horizonte (Uni-BH).

Como pano de fundo, a demanda por profissionalização encontra uma Minas Gerais que vem sendo reconhecida como a Bélgica brasileira, com cadeia produtiva que inclui cervejarias, lojas especializadas e bares. O Sindicato das Indústrias de Cerveja e Bebidas em Geral do Estado de Minas Gerais (SindBebidas) calcula 70 cervejarias instaladas no estado, sem contar as ciganas – sem fábricas próprias – e as caseiras.

Ainda de acordo com a entidade, a produção da bebida alcança 1,8 milhão de litros ao mês. Para se ter uma ideia do aumento, o número de cervejarias é 70% maior em relação às 41 estimadas em março e a produção, 28,5% maior em relação ao 1,3 milhão de litros ao mês informados também em março. A consolidação do cinturão cervejeiro ocorreu, no entanto, a despeito da formação acadêmica.

“Hoje tem um mercado crescente de cervejarias, lojas especializadas, empórios e bares com demanda por produtos de melhor qualidade. O desenvolvimento do mercado não foi acompanhado da qualificação profissional”, explica o coordenador do curso de pós-graduação em tecnologia cervejeira do Uni-BH, Carlos Henrique de Faria Vasconcelos, mestre cervejeiro da alemã Hofbräuhaus na capital mineira. Biólogo formado pela UFMG, Carlos Henrique foi parar na Doemens Akademie, em Munique (Alemanha), para se aprofundar no assunto.

E este ano até a UFMG embarcou no universo cervejeiro e passou a ofertar, uma vez por mês, o curso de atualização em cerveja artesanal. As aulas estão confirmadas também para 2018, tamanho o sucesso. Este ano, também o Governo de Minas ofereceu gratuitamente cursos de cervejeiro e de vendedor técnico de cerveja, com parte do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec).

A pós em tecnologia cervejeira do Uni-BH foi a primeira em cerveja no Brasil, criada em 2014, de olho nesse crescimento. “O perfil dos alunos é o mais diverso que se possa imaginar, pois o curso não tem formação específica como pré-requisito. São profissionais das mais diversas áreas, principalmente o cervejeiro caseiro que busca se profissionalizar e proprietários de cervejarias que buscam maior qualificação”, reforça Carlos Henrique, professor em sete instituições.

A rigor, para se tornar de fato mestre cervejeiro é necessária graduação, disponível atualmente somente na Escola Superior de Cerveja e Malte (ESCM), em Blumenau (SC), primeira instituição na América Latina focada exclusivamente no setor de bebidas. Na prática, o mercado acolhe profissionais sem o título formal. A ESCM tem oferecido cursos em BH e, para 2018, prepara uma nova grade. “Novos cursos ainda estão sendo definidos. A escola deve fechar um curso de pós-graduação com o Uni-BH”, afirma o cervejeiro e sócio da Falke Bier, Marco Falcone, vice-presidente do SindBebidas.

Mercado 

Engenheira química, Anna Laura de Castro Fagundes, de 26 anos, se apaixonou pela produção da cerveja desde quando estava na faculdade. A porta de entrada no mercado foi como garçonete de uma cervejaria, embora ela já soubesse que queria estar na linha de frente da fabricação, e não servindo a bebida. “Não tinha qualificação suficiente e, por isso, busquei uma pós-graduação, em que aprendi desde as disciplinas básicas até o desenvolvimento de um novo produto. Fiz também um networking fantástico”, conta Anna.

A formação lhe abriu as portas do mercado e Anna Laura agora é a responsável pelo laboratório de controle de qualidade da cervejaria Verace, inaugurada há pouco mais de um ano e com vários prêmios no currículo. “Nesse universo, é bem aquilo ‘só sei que nada sei’. A gente tem sempre que buscar novos destinos, novas tendências. O conhecimento não é parado, é gerado o tempo todo”, ressalta.

Anna Laura tem encontrado mercado promissor, mas a sommelière e fundadora da Academia Sommelier da Cerveja, Fabiana Arreguy, chama a atenção para a realidade. “Muita gente entende o segmento numa nova promessa profissional. Mas ainda há muito equívoco, ainda não se ganha tanto dinheiro assim. Os custos são muito altos”, alerta. De acordo com o Sine, a média salarial de um mestre cervejeiro no Brasil pode ir de R$ 3 mil a R$ 6,4 mil, dependendo do tempo de experiência e porte da empresa.

‘Fábricas’ de cursos

Para além das escolas formais, as próprias cervejarias artesanais ganham ares de escola, promovendo cursos de produção caseira. Famoso festival das artesanais, no Jardim Canadá, em Nova Lima, a Escola Experimente está se tornando espaço de referência no assunto, dedicado ao estudo de cervejas. O Mercado Central também tem cursos na área.

Por causa da demanda por profissionalização, o SindBebidas está concluindo junto às fábricas artesanais levantamento sobre as demandas de capacitação. O resultado vai servir como base para a oferta de novos cursos focados no setor que serão oferecidos pelo Serviço Nacional de Aprendizado Industrial (Senai).

“Profissionais talentosos, cozinheiros, autodidatas compravam uma panela e se arriscavam no mundo da cerveja, saíram da panelinha e caíram na indústria sem qualificação. E o processo de cerveja industrial é outro”, afirma o mestre cervejeiro da Backer, a mais antiga do estado, com mais de 40 premiações nacionais e internacionais, Sandro Duarte.

Engenheiro-agrônomo, ele vem de uma experiência na Ambev e buscou conhecimento específico na produção artesanal na Alemanha e no Senai, em Vassouras (RJ), escola que foi referência na área. Sandro já lecionou cursos sobre cerveja em universidades e, atualmente, se dedica às aulas sobre produção de cerveja caseira na própria Backer, o Homebrewer, criado há um ano e meio. “Tem todo mês e as turmas são lotadas. Abrimos 20 vagas e sempre tem lista de espera. Muita gente está se aventurando nesse universo”, afirma.

O número de alunos da Academia Sommelier da Cerveja, uma das mais antigas escolas sobre a bebida na capital mineira, fundada em 2012, demonstra o aumento do interesse. A segunda turma contava apenas com 12 alunos, sendo que, atualmente, os grupos contam, em média, com 40 alunos. O foco é na orientação sobre a bebida, e não no processo de produção.

“O perfil é bastante misturado e o interesse difuso, mas, de três anos para cá, percebemos muitos profissionais procurando mudar o rumo da carreira. Antes, eram mais pessoas interessadas no assunto e que faziam o curso como hobby”, afirma Fabiana Arreguy, uma das fundadoras da escola. A legislação brasileira ainda não conta com regulamentação da profissão de sommelier de cerveja.

Fonte: EM

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